quinta-feira, 17 de setembro de 2009



-por Henrique Amaral-
(Fonte: http://www.institutoprogredir.com.br)

Vivemos num mundo de conflitos. Diariamente confrontamos nossos interesses com amigos, colegas, familiares, companheiros, etc. É inútil fugirmos dos conflitos ou fazer de conta que eles não existem, pois indubitavelmente eles estarão lá corroendo nossos planos, aspirações e nossa felicidade.

Dentro de uma organização não é diferente. A todo momento e em todos os níveis, verificamos situações por vezes inacreditáveis de conflito, iniciando às vezes entre os próprios sócios, se estendendo até os funcionários de escalão mais baixo.

Se estes conflitos não forem bem geridos, individual ou coletivamente, os prejuízos podem ser grandes ou até irreparáveis em determinadas situações. Meu objetivo neste texto é introduzir uma pitada de algo tão antigo, mas ainda e sempre tão atual: o perdão.



Não há nenhum conflito que não possa ser desfeito desde que se utilize a essência mais pura do perdão. Organizações não se conflituam, nem mesmo departamentos ou até mesmo nações. Quem se conflituam são as pessoas que ocupam posições nestas instituições.

Basta, portanto, dedicarmos um pouco de tempo a trabalhar nossa percepção interior, transformando conseqüentemente nossa visão exterior. Este artigo se propõe ser o início de uma reflexão mais abrangente da origem, desenvolvimento e solução de conflitos pessoais e organizacionais.


CONFLITOS PESSOAIS E ORGANIZACIONAIS


Como falei a pouco, são as pessoas que se conflituam, se atritam, se desarmonizam. Portanto a chave para a solução de conflitos entre organizações reside nas pessoas envolvidas no fato.



É claro que é muito difícil tecer generalizações porque cada pessoa traz dentro de si um universo único e individual. Mas algumas conclusões são possíveis dentro de tão subjetivo assunto.

As organizações são fontes constantes de conflitos. Sócios podem se desarmonizar por causa de idéias e estratégias diferentes. Funcionários de departamentos diferentes podem se conflitar por possuírem interesses diferenciados, causados muitas vezes por decisões estratégicas contraditórias. Também funcionários do mesmo departamento podem disputar funções, beleza e atenção. Todos estes são conflitos internos.

Há ainda os conflitos externos, entre a organização e seus clientes, seus fornecedores ou seu ambiente. Também vale citar os conflitos de classes, a tão antiga divergência entre a classe de patrões e empregados.

Mas perceba bem que todos estes conflitos têm como personagens centrais meras pessoas reais e comuns, com famílias, vivências, sonhos, expectativas e dramas. Vou aproximar a lente de nossa análise e chegar até o cerne desta questão: o indivíduo como ser relacional, mutável, mas felizmente muito adaptável.


OBJETIVOS DA GESTÃO DE CONFLITOS


Os conflitos, quando não bem geridos, podem causar prejuízos incalculáveis. Muitas organizações já deixaram de existir em nossa história devido a conflitos internos ou externos gerados pelos mais variados fatores.

O objetivo principal da gestão de conflitos é minimizá-los, transformar contendas destrutivas em oportunidades de melhoria e crescimento pessoal e organizacional.

Os conflitos são extremamente necessários para nosso crescimento e também para a empresa na qual estamos inseridos. Entretanto, não podem chegar às raias da auto-destruição, momento no qual eles se tornam danosos a todos os envolvidos.

A maior parte dos grandes avanços, individuais ou coletivos, surgiu de conflitos. Não é necessário mergulhar no abismo de tristezas só porque se está dentro de uma situação de desarmonia. Pelo contrário. Diga “Ótimo! Sou a pessoa mais indicada para resolver esta situação. E mais, vou ainda tirar muito proveito dela.”

Esta é a essência da gestão de conflitos. Fazer do limão uma limonada. Transformar conflito em crescimento. Sugar da fonte da contenda o néctar para o aprimoramento constante. Porque existe algo que podemos generalizar: toda situação de conflito mostra algo que estávamos escondendo ou deixando de lado, um aspecto nosso que precisava mudar, precisava evoluir. O conflito é o instrumento que a natureza colocou em suas mãos para que se efetue a transição de uma situação não satisfatória para uma ainda mais íntegra e universal.


O CONFLITO TEM ORIGEM INTERIOR


Antes de chegar ao ponto central deste artigo, vamos analisar bem a origem de todo conflito, seja qual for a proporção dele.

A maior parte das pessoas “inteligentes” possui um senso crítico muito aguçado. Conseqüentemente, possuem habilidades incríveis para perceberem defeitos, falhas e lacunas nas outras pessoas. O desenvolvimento deste sentimento crítico é extremamente nocivo a seu proprietário. É muito bom ter uma percepção aguçada, conseguir enxergar longe, o que as pessoas comuns não conseguem enxergar. Porém, esta propriedade não deve servir para perceber defeitos nas outras pessoas, pois isto se torna uma porta aberta para a confusão.

E é aí que reside a origem dos conflitos. Quando passamos a ver o outro como agente maléfico ou nocivo a nós mesmos ou a algo que tenhamos interesse, este indivíduo passa a ser visto como um inimigo ao qual começamos a delinear sentimentos de repulsão ou medo.

Mas o mais interessante de tudo isso é que só conseguimos enxergar defeitos nos outros que na realidade possuímos dentro de nós. Alguém pode dizer: “mas como assim?” “vejo que fulano é realmente uma pessoa má, mas eu não sou assim.”.
É tudo uma questão de modelos interiores. Somente pessoas sensíveis conseguem apreciar uma obra de arte na sua íntegra porque há uma sintonia entre a obra e os modelos particulares delas. Em relação às pessoas, a situação se repete: só conseguimos ver defeitos os quais na verdade os possuímos na forma de modelos dentro de nós mesmos.

Por que será que alguns conseguem levar uma vida sem grandes temores e outros vivem aterrorizados pelo porvir? Simples, de novo nos remetemos aos modelos interiores.

Exemplificando. Uma pessoa que foi rejeitada muitas vezes, ou pelos pais ou pelos seus relacionamentos afetivos, tende a abrir a guarda toda vez que sente que possa ser rejeitada novamente. Uma pessoa que teve muitas perdas, sejam financeiras ou emocionais, tende a recear novas perdas, vendo em cada personagem um possível inimigo. Uma pessoa que teve sérios problemas com seu pai tende a transferir a seu superior (símbolo paternal subconsciente) todas as suas mágoas familiares reprimidas. Estes são apenas alguns dos infinitos exemplos que podem ser citados.

Entretanto, o que vale a pena compreender aqui é que todo e qualquer conflito tem seu ponto de partida em uma conceituação muito íntima. Embora nossos olhos nos confundam, assinalando que a agressão está vindo de nosso exterior, é o nosso interior que grita pela solução de um conflito já gerado no passado e não resolvido.

Bem, começamos aqui a engatinhar pelo caminho da solução dos conflitos. Mas ainda falta o passo decisivo e fundamental: o perdão.


QUANDO O PERDÃO ENTRA NA HISTÓRIA


Vale a pena assinalar que, ao entrarmos em um conflito, nos tornamos prisioneiros dele, perdemos completamente nossa liberdade natural, caímos na armadilha do nosso ego. Já não somos mais nós mesmos. Somos agora remetidos a nosso “eu passado”, projetando tristezas e recalques anteriores.

Já observamos a origem do conflito, o qual normalmente é trazido de nosso próprio bojo de experiências íntimas. Vimos como ele se desenvolve, ou seja, toma forma à medida que projetamos nos outros esses nossos traumas, crenças e medos. Pois bem, está na hora de avançarmos para o ponto principal deste artigo, ou seja, a gestão ou solução do conflito.

É importante compreender que nós não nascemos para sermos infelizes ou para vivermos em situações de desconforto. Nascemos sim para desfrutar uma vida íntegra, saudável e feliz. Você pode até vivenciar ou até aprender a conviver em conflito, mas sua consciência íntima o alertará que algo está errado, algo precisa ser mudado.

Gestão do conflito não significa aprender a conviver com ele, mas solucioná-lo e ainda gerar lucro pessoal e profissional com ele. Só quando isso acontecer é que se pode dizer que a gerência da situação teve sucesso.

Se observarmos no dicionário o significado de perdão, encontraremos palavras como absolvição, clemência, anistia, graça, indulto, remissão. Mas vale a pena compreender aqui a quem esta absolvição deve ser concedida.

Partindo do princípio de que nada vem do seu exterior, mas sempre do interior, o agressor passa a não ser mais seu agressor, mas seu professor. Professor no sentido de mostrar-lhe que está na hora de conceder a você mesmo a anistia do seu mais profundo ser, aprisionado em crenças equivocadas.

O primeiro passo do perdão é compreender que não está no outro a culpa, a responsabilidade ou o dolo. Está em você mesmo. Você é que não soube conduzir a situação ou, em análise mais profunda, a sua própria vida. Portanto, a gestão de conflitos acaba abrindo o caminho para a própria gestão de sua vida pessoal.
Após compreender que já não é responsabilidade do outro, mas minha, é hora de perdoar a si mesmo, por ter enxergado o algoz, o inimigo onde na verdade ele não estava. É hora de perdoar sua própria ignorância.


CASOS EXTREMOS


Existem casos extremos. Casos nos quais a pessoa precisa exercitar o perdão em último grau. Já orientei alguns casos de moças e rapazes que foram molestados sexualmente pelo próprio pai. O que pode ser pior? Como oferecer a clemência neste caso? É necessário desarmar o coração e nesta situação preenchê-lo com doses imensas de amor, que transborde até o coração do opositor.

Há ainda aquele outro caso do empresário paulista que teve seu filho seqüestrado, mantido em cativeiro, mutilado e por fim morto pelo seu amigo e chefe de segurança. Este caso foi reconhecido nacionalmente após este pai ter oferecido seu perdão ao seu opositor no programa Fantástico, da Rede Globo. Após tal evento, este pai criou uma fundação para combate a violência. Aqui podemos dizer que houve verdadeira e profundamente uma gestão de conflito cheia de sucesso.

Mas acredito verdadeiramente que os conflitos mais comuns não chegam nem perto de tais situações, felizmente. Veja bem, se é possível conceder a anistia até mesmo em casos extremos como os citados, por que não resolver o seu conflito? Por que adiar a solução de algo que possa estar lhe incomodando tanto?

Pois bem, chegou a hora de despir-se de seu ego. Quando falo aqui em ego, não estou falando no sentido psicanalítico, mas sim do conjunto de razões e princípios que tentamos aparentar pelos nossos conhecimentos, crenças, cargos exercidos, posições assumidas. Sim, é bom refletir agora mesmo também sobre isso. Verifique que todas as agressões que passou ou vem passando não são agressões a você em si, mas a seu ego. Você mesmo continua intacto, não perdeu sequer um milésimo de seu valor, foi seu ego que foi atingido.

Agora avançamos mais um passo para a solução do conflito. Após verificarmos que toda desordem vem realmente do seu interior, acabamos por descobrir que você continua com toda sua importância, mesmo parecendo derrotado ou humilhado algumas vezes. Descobrimos que quem foi derrotado foi seu ego, e não você. Bom saber disso, não é verdade?


ENTRE A DESCULPA E O PERDÃO


Muitas pessoas confundem o significado de desculpar e perdoar. Desculpar é apenas um estágio, ou melhor ainda, uma parte pequenina ainda do perdão.
Desculpar significa retirar a culpa. O prefixo “des” antecedendo a palavra “culpar” significa absolver o culpado. É como se entre você e seu oponente houvesse um obstáculo, uma contenda, e você simplesmente remove-o do caminho entre vocês dois. Isso parece resolver o conflito, mas na verdade não o resolve.

É simplesmente um paliativo. Anistiar a culpa do outro ainda não faz você se olhar no espelho e rever seus conceitos, solucionar seu passado, transformar-se numa pessoa melhor. Pelo contrário, só faz crescer seu ego. Você se coloca numa posição acima de seu adversário e diz: “pobrezinho, mesmo sendo tão errado, eu lhe desculpo.” Isso pode perfeitamente tapar seu sol com uma peneira, mas não por muito tempo. Tenha certeza que novos conflitos surgirão, sejam com o mesmo inimigo ou ainda outros. O modelo interior não foi corrigido. Seu ego não foi trabalhado.

Vamos agora analisar a palavra perdoar. Verifique a expressão contida no interior desta palavra: “doar”. Aqui vemos a chave da solução e também o conceito mais profundo do perdão. Significa que você precisa doar ao seu opositor. Parece coisa para um santo, mas não é, é coisa que você mesmo pode fazer. Quando pensar em doar, comece por si mesmo. Que tal doar um pouco mais de qualidade de vida a você mesmo. Já vimos antes que os conflitos acabam por aprisioná-lo, e isso é real. Não vale a pena se tornar prisioneiro de suas próprias desarmonias. Além disso, perceba que quem mais sofre na situação é quem não perdoa, e não o suposto atacante. Solte esse peso, libere as pessoas que vêm segurando em seu coração. Liberte o outro e a si próprio.

Pois bem, já que doou qualidade a seu próprio campo emocional, agora chegou a hora de oferecer um pouco ao seu oponente. Parece difícil, mas não é. Na verdade, tudo sempre é uma questão de treinamento. Todo mundo só pode doar aquilo que tem. Se seu agente conflitante só soube lhe oferecer imundícies, talvez seja só isso que ele tenha para oferecer. Reconheça que você não é igual a ele, pois possui coisas muito melhores a oferecer.

Sem entrar no mérito das questões éticas, recordo de uma cena de uma série na televisão em que uma amante recebe da verdadeira esposa um lindo embrulho contendo fezes em seu interior, como prova do repúdio à atitude da traidora. Esta, por sua vez, manda colher as flores mais lindas de seu jardim, preparando um lindo buquê, enviando-o de volta a sua opositora com um bilhete no mínimo interessante: “Estas flores são para o seu agrado, pois cada um manda aquilo que tem para oferecer.” Como disse, não gostaria de entrar no mérito da situação, mas apenas no ato em si. É bem provável que esta mulher tenha fisgado este marido por ter bem mais a oferecer do que a esposa legítima.


DISSOLVENDO TODOS OS CONFLITOS


Chegamos ao final deste artigo. Verificamos que o perdão, em seu conceito mais profundo, é a antiga e atual receita para dissolver todos os conflitos.

Este conceito pode ser aplicado em todos os tipos de contendas, do mais alto escalão ao mais baixo, do indivíduo mais intelectualizado ao menos provido de estudo, do mais generoso ao mais mesquinho.

Parece que eu virei seu jogo. Transformei seu agressor em seu professor. Rasguei seu papel de vítima, dando-lhe um novo papel: o de responsável. Se você chegou até este ponto deste artigo e já começa a refletir que talvez a causa do conflito esteja em você mesmo, atingi meu objetivo.

Não existem conflitos unilaterais, eles são sempre no mínimo bilaterais. Mas o melhor de tudo é saber que a chave da solução dos conflitos está dentro de você mesmo. Não são necessárias técnicas complexas, apenas um pouco de boa vontade e um coração cheio de amor.

Se detectarmos uma pequena sujeira em um copo com água, certamente não o beberemos. Mas uma grande sujeira no mar não nos impede de banharmo-nos nele. A questão não é o tamanho da sujeira, mas a quantidade de água. Assim também é num conflito. Não importa o tamanho do obstáculo, do defeito de seu opositor, importa é o tamanho do seu coração. Se ele for grande suficiente, certamente dissolverá todo o conflito.

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