domingo, 25 de outubro de 2009


SOLIDÃO

                                       (por Alexandre Rodrigues Vieira - alexrvieira@yahoo.com.br)

                                              

É cada vez mais comum ouvirmos queixas de solidão em consultório. Poderíamos, então, nos perguntarmos: Com tanta tecnologia diminuindo as distâncias no mundo através da Internet, dos celulares que acham você a qualquer hora e em qualquer lugar, etc., como as pessoas ainda se sentem tão sós? Não deveria estar acontecendo justamente o contrário, ou seja, um sentimento geral de mais união e plenitude nos relacionamentos?

Uma resposta a essas indagações nos foi apresentada de forma bastante convincente por um importante filósofo alemão chamado Martin Heidegger. Segundo ele, é justamente essa Era da Técnica a maior responsável pelo esvaziamento dos seres humanos. Eu explico melhor: Apesar de estarmos mais em contato com outras pessoas, a qualidade dessas relações tornou-se extremamente superficial e, em sua grande maioria, voltada para o valor da utilidade. Devido a uma filosofia sócio-econômica de consumo de bens descartáveis, passamos a nos interessar somente pelo que nos serve de alguma maneira, descartando-se o quanto antes tudo que possa dar muito trabalho sem resultados imediatos.


Talvez seja esse o motivo de assistirmos espantados casamentos superbadalados na mídia com duração de poucos meses. Tudo isso reflete o sistema consumista em que vivemos, onde respira-se uma atmosfera de aparências e da necessidade do TER. A velocidade das informações, dos acontecimentos e das transformações tornaram ultrapassados certos conceitos outrora mais valorizados, tais como: paciência, tolerância, reflexão, dividir, trocar, compartilhar, construir, cuidar.


Apesar de estarmos mais próximos fisicamente, estamos cada vez mais distantes existencialmente.


Vive-se na correria do dia a dia, das preocupações financeiras e de tudo que falta e sempre falta alguma coisa. Acabamos por viver em função dos nossos próprios interesses, esquecendo-nos que, como nos disse Heidegger, o ser humano é sempre um ser-com-o-outro. Jamais podemos pensar em nós mesmos se não for em relação com os outros. 


Estamos próximos, mas não junto ao outro. A diferença é que a primeira não faz sentido algum se não reaprendermos a nos relacionar para realmente valorizar a presença e o ser das pessoas. 


Estar junto não é só poder falar do último capítulo da novela por falta de outros assuntos. Estar junto começa com você mesmo, pois só podemos cuidar bem de uma relação à medida que aprendemos a cuidar bem da nossa própria existência. E como podemos fazer isso? Não fugindo das responsabilidades para nos tornarmos bons pais, boas mães, bons filhos, bons maridos ou esposas, bons profissionais, etc; Procurando vencer as tendências negativas que todos nós trazemos de outras existências; Buscando incansavelmente o sentido da sua vida.


Foi justamente buscando o sentido da vida que Sidarta Gautama, o Buda, e assim como ele tantos outros, refugiou-se em sua solidão para poder estar mais em contato consigo mesmo. Através de longos períodos de meditação, alcançou a iluminação, que significa o despertar para a vida. Aproveitando o seu exemplo, podemos concluir que a solidão só poderá representar dor ou escuridão para aqueles que esqueceram de buscar o PARA QUÊ vieram a esse mundo. Um mundo que, apesar das inúmeras dificuldades, pode ser de muita beleza e luz, desde que aprendamos a lhe dar esse sentido. 



Namastê. 

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